sábado, 21 de janeiro de 2012

"Você não entendeu o que eu quis dizer"

Mais uma da série "Você não entendeu o que eu quis dizer".

Corriam os anos pesados da ditadura militar, o pau quebrando, e um baiano maluco lançou uma música.

Como era de costume, a canção tinha de passar pelo crivo de censores - aliás, estúpidos e retrógrados como todos os censores.

Pois ninguém viu nada demais na música. Segundo ele, uma letra bobinha, um refrão mais ainda. Nada que abalasse a estrutura da família e ameaçasse a segurança nacional.

E vai que a música fez sucesso e quando foram perceber era um tremendo libelo contra a ditadura, a estupidez e a imbecilidade reinantes naquela época.


E não adianta
Vir me detetizar
Pois nem o DDT
Pode assim me exterminar
Porque você mata uma
E vem outra em meu lugar...

Mais Luiza (a última)

Luiza já voltou do Canadá e eu já fui mais inteligente, mas ainda acho que não contaram a origem da história pro Carlos Nascimento. Nem pra muitos que repetiram o bordão. Então vamos recapitular.

Um colunista social lá da Paraíba fez um comercial de imóvel e disse a famosa frase. Deslumbrado - como todo colunista social - e com a necessidade de mostrar ostentação - como todo pequeno burguês emergente - o dito cujo quis mostrar a todos que a filha estava no Exterior - como convém a toda mente colonizada.

Imediatamente, vira gozação. As pessoas repassam o vídeo e repetem o bordão. Foi uma maneira de mostrar a estupidez dos personagens, tolos, superficiais e frívolos.

A menina não virou celebridade por seus dotes intelectuais ou metafísicos. Foi por conta de uma gafe do pai.

E eu é que sou chamado de burro nesta história.

Francamente...


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Mais ou menos inteligente?

O comentário do Carlos Nascimento é o mesmo daqueles que criticam o BBB.

"Vejam sou inteligente, leio Homero no original, sei quatro idiomas, uso os talheres de forma adequada e sei combinar camisas e gravatas."

É o discurso arrogante do conhecimento acadêmico contra a "burrice" dos sem-diploma. O episódio trata de uma brincadeira, tão comum ao espírito brasileiro, e só. Daqui a pouco ninguém se lembra mais. E assim a vida segue.

E ainda tem o velho preconceito sobre tudo que circula nas redes sociais é de uma idiotice sem tamanho.

Chega desse complexo de vira-lata e essa repetição chata de "é-por-isso-que-o-país-não-vai-pra-frente"

Mais humor, menos rancor...

Bem vinda, tolerância

Não assisto nem gosto de BBB, mas tenho controle remoto e respeito quem gosta e assiste #prontofalei

A frase – ou post, como preferirem – foi publicado em minhas páginas pessoais no Twitter e no Facebook. E foram retuítadas e compartilhadas, recebendo uma saraivada de 'curti' e palavras de apoio. E até de reprimenda e críticas ao que foi chamado de 'politicamente correto'. Mas não seria normal, num mundo dito civilizado e democrático, respeitar as opiniões alheias, ainda que divergentes?

Não é assim que parece funcionar o mundo virtual, nem o 'mundinho' das redes sociais. Dezenas de posts circulam delimitando conversas e temas e fincando barreiras sobre o que deve ou não ser conversado. Talvez o BBB ganhe disparado. Tem até um filtro que bloqueia posts quer versem sobre os confinados globais e seus assuntos – ou a falta deles. Tem também a velha reclamação da 'orkutização' do Facebook – seja lá o que isso for.

Pois bem, sem qualquer arroubo de sociologia, vale frisar – e o próprio nome diz – são redes sociais. Elas existem muito antes de o avô de Steve Jobs ter nascido e surgiram da necessidade de o ser humano em se agregar em dividir angústias, dúvidas, alegrias e gritos de gol. O que mudou no mundo pós-Jobs e Gates é que elas foram incorporadas pelas tecnologias. São redes sociais, não redes tecnológicas.

Portanto, se são redes sociais trazem todos os vícios e idiossincrasias da sociedade. E, repetem, os mesmos cacoetes da desinformação e do preconceito. Pessoas são criticadas por seus gostos musicais, ridicularizadas por suas crenças religiosas, alvos de brincadeiras por conta do time pelo qual torcem... e por aí vai. E é evidente que é muito baboseira e futilidade nas redes sociais. Assim como na vida real.

Assim, sendo, meus amigos, não custa fazer uma forcinha e ser mais tolerante no mundo virtual. É mais do que óbvio que ninguém é obrigado a seguir ou ser amigo de ninguém. Eu mesmo, recentemente, andei fazendo uma faxina. Mas não se esqueça que nas redes tem gente. E gente torce pro outro time, gosta de outras coisas, de outros políticos, de outro filme...


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Flash memories ...


Já que a revista "Veja" nunca deixa de ser assunto, tomo a liberdade de reproduzir o texto.
Via Freak Show Business - Alexandre Santos

O cantor Cazuza ficou tão transtornado com esta capa da Veja, que chegou a ser hospitalizado. A entrevista que ele dera à revista foi usada de forma reprovável.

Na capa, um Cazuza assustadoramente cadavérico ilustrava a sensacionalista chamada “Uma vítima da aids agoniza em praça pública”. A abertura da matéria decretava sua morte: “O mundo de Cazuza está se acabando com estrondo e sem lamúrias.

Primeiro ídolo popular a admitir que está com Aids, a letal síndrome da imunodeficiência adquirida, o roqueiro carioca nascido há 31 anos com o nome de Agenor de Miranda Araújo Neto definha um pouco a cada dia rumo ao fim inexorável. Mas o cantor dos versos ‘Senhoras e senhores / Trago boas novas / Eu vi a cara da morte / E ela estava viva’ faz questão de morrer em público, sem esconder o que está se lhe passando.”

A repórter Angela Abreu, uma das responsáveis pela entrevista, se demitiu ao ver o que fora feito de sua apuração (na Veja, as matérias não são escritas por quem as apura, mas por redatores que recebem a apuração já pronta).


O roto e o esfarrapado

É patético como PT e PSDB tornaram-se as duas faces da mesma moeda.

Os tucanos em Brasília são barulhentos e exigentes com a coisa pública. Ótimo. É o papel deles e para isso foram eleitos.

Já o PT, na Capital Federal, põe panos quentes ali, desconversa aqui e apela para o silêncio obsequioso em outras ocasiões.

Nas Minas Gerais, ocorre o contrário. O PT, barulhento, cerrou fileiras ao lado dos professores na luta pelo piso salarial. Também nada mais justo, legal e democrático.

Enquanto isso, o tucanato mineiro preferiu o silêncio obsequioso e votou, sem pestanejar, um projeto, no mínimo polêmico.

Um peso, duas medidas, diria o velho Sócrates.



quinta-feira, 28 de abril de 2011

Recrutamento


Não senhor entrevistador, analista de RH ou futuro e provável empregador. Não sou perfeito. Tenho defeitos.

Tenho preguiça nas manhãs cinzentas, euforia e dispersão às vésperas de festas e eventos do gênero. Costumo vibrar com meu time e adoro passar datas importantes ao lado de minha família, principalmente comemorar o aniversário do meu filho.

Tenho impaciência, um pouco de intolerância, em certas épocas fico ansioso, noutras apático.

Não senhor analista de RH, nunca fui ao Everest pulando num pé só nem atravessei o Canal da Mancha nadando de costas. Nunca fiz algo do gênero só para ver testada minha capacidade de resistência ou de sobreviver a desafios.

Muito menos liderei uma equipe de 46.789 pessoas focadas em resultados ou voltadas para metas que afinal nem eram delas, e sim, da empresa.

Não, senhor entrevistador, não tenho total capacidade de concentração. Às vezes paro para observar o azul do céu, uma borboleta do lado de fora da janela, ou mesmo esticar as costas enquanto sonho com férias na praia.

Entre outros defeitos, eu rio. Rio muito, dou gargalhadas e costumo espalhar sorrisos. Mas às vezes uma humilhação ou contrariedade pode me marejar os olhos.

Alterno tristezas e alegrias. Não preciso colocar na ficha que tenho tendências ao transtorno bipolar. Isso se chama emoção, se é que me entende.

Sim, futuro e provável empregador, trabalhei em muitas empresas. Taí no meu currículo. Algumas me dispensaram, noutras optei por sair.

Algumas cometeram erros e a saída foi "contigenciamento de pessoal" ou "alguns ajustes". Tem ainda "adequação ao mercado".

Em nenhuma delas, garanto, fui o único responsável por crises, falências ou erros crassos de administração. Afinal, muitas continuam aí. Em outras, o que houve mesmo foi má-fé e dolo, afinal, o simples fato de empreender ou se auto-intitular empresário não transforma ninguém em anjos celestiais ou exemplos irretocáveis de honestidade e moralidade.

Há muita, digamos se me permite, picaretagem no mundo.

Sim, senhores, estou disposto a trabalhar, aprender, ensinar, conviver, ter prazer, superar problemas, mas aviso que não sou perfeito. Tenho todos os defeitos listados acima, mais alguns. Mas posso ser útil, muito útil, mesmo assim. Do contrário, procurem um robô. Se é que do jeito que vocês querem ele já tenha sido - ou melhor venha a ser - fabricado.

Atenciosamente,

quarta-feira, 30 de março de 2011

Valeu Bolsonaro!

O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) não é nenhum novato. Nem surgiu agora na política. Está em seu sexto mandato. Isso mesmo: sexto mandato! Ou seja, derruba aquela tese de que foi eleito porque o povo não sabe votar e é enganado. Ninguém engana ninguém por seis vezes consecutivas. Se ele está lá no Congresso é porque alguém quer.

E ele sabe muito bem disso. Encarna uma espécie de personagem e se comporta do jeito que esse grupo de pessoas quer. Há anos diz as mesmas sandices carregadas de desinformações e distorções. E é óbvio que agrada quem o colocou lá. Até aí, tudo legítimo, legal e democrático.

Mas duas coisas devem ser observadas.
Primeiro - As mesmas distorções e preconceitos foram exibidos fartamente ao longo da última campanha eleitoral. E a questão da união civil entre homossexuais - não confundir com casamento gay - esbarrou e esbarra nos mesmos preconceitos exibidos pelo deputado em questão. E ele não era voz única. Sem falar nas acusações à presidenta Dilma e a exploração absurda em torno do aborto.

Segundo - A entrevista em questão foi exibida pelo programa CQC. O mesmo cujo apresentador, Marcelo Tas, volta e meia quer que o Congresso pegue fogo, por exemplo. Ou seja, para ele, todos lá - sem as honrosas e diminutas exceções - se parecem com Bolsonaro. O que não é verdade, justiça seja feita. Não é acabando com o Parlamento que vamos minimizar as distorções na política. É a velha máxima: Ruim com eles, pior sem eles.

E para finalizar, mais duas coisas: enquanto as pessoas se preocupavam com Tiririca esqueceram-se do Bolsonaro. E, legítimo representante da extrema direita, Bolsonaro joga por terra que os conceitos de esquerda e direita não existem mais.

domingo, 27 de março de 2011

Luzes Apagadas

O sujeito apagou as luzes de casa ontem. Hoje cedo saiu com o cachorrinho de estimação que fez cocô na rua e ele nem se deu ao trabalho de limpar.

Saiu sem dar bom dia ao porteiro, ao balconista da padaria, ao dono da banca de jornais. Depois jogou lixo da janela do carro.

E ainda está crente que ontem fez sua parte na salvação do planeta.

Não sou contra o movimento em si. Acho muito legal essas coisas simbólicas. Mas cotidianamente apago as luzes de cômodos vazios, recolho plásticos e isopores e levo para a antiga escola do meu filho, onde as crianças fazem brinquedos e sempre passa alguém que faz reciclagem. É pelo menos uma sacola das grandes a cada semana. E sei que posso fazer mais. No entanto, como é uma questão de hábito, alguns custam a virar rotina. Mas tenho me esforçado.

Mas também acho que salvar o planeta não é só lutar pela preservação das focas-leopardo da Groenlândia ou as baleias cinzentas da Austrália. Ser mais educado com o semelhante talvez faça mais diferença.

E, por favor, felizes proprietários de cachorrinhos: calçada não precisa de adubo. Limpe o cocô do seu cachorro. O planeta, mas principalmente, seu vizinho, agradecem penhoradamente!

A Rede Social

Disponível em DVD, "A Rede Social" atraiu a curiosidade deste que vos escreve. E, sinceramente, não consegui entender porque o filme foi tão incensado a conquistar o Oscar. É bem feito tecnicamente - apesar da fotografia um tanto quanto sombria -, mas não deve agradar quem não está habituado aos zilhões de jargões e termos técnicos da internet.

O roteiro me pareceu pobre e simplesmente narrou a saga do Facebook, que nasceu em um alojamento de Harvard e hoje está em 207 países. O que aliás, muitos já estão carecas de saber. O filme então não traz grande novidades.

Também achei o personagem Mark Zuckenverg estereotipado, caricatural até. Não foi essa a impressão que tive quando assisti a uma entrevista dele à MTV, ano passado.

É um bom filme, sem dúvida. Mas daí ganhar a estatueta são outros 500.

E as aulas continuam...


Devo admitir que a palavra empreendedorismo também já mereceu de mim a desconfiança. Pelo senso comum - e a grande mídia aposta neste modelo - é coisa de geninhos ou oportunistas ávidos em enriquecer sem fazer força. Basta ver o endeusamento do empresário Eike Batista, para ficar no exemplo mais clássico.

Mas a cortina de fumaça começou a se desfazer com uma série de leituras e o primeiro contato com a matéria em sala de aula. Uma constatação: não significa que todo empreendedor vai se tornar milionário. É possível empreender para levar uma vida digna, obtendo uma renda - além do prazer e da qualidade de vida - melhor que os vergonhosos salários pagos a jornalistas. Exemplo que eu conheço muito bem, registre-se.

Detectar uma oportunidade não significa oportunismo. Diante disso, é possível ensinar empreendedorismo? Espero e acredito que sim. Não significa que todos vão se transformar num Bill Gates ou em um Mark Zuckenberg após ler meia dúzia de livros. Mas é possível alargar horizontes e enxergar novas formas de sobreviver e, por que não, ganhar dinheiro.

Ainda temos uma cultura do emprego para toda a vida. Taí a insana corrida atrás de concursos públicos que não me deixa mentir. E o cruel mercado de trabalho repõe com uma velocidade espantosa postos de trabalho e dilui com os sonhos e planos de todos nós. Empreender, neste sentido, é uma saída legítima e legal para que milhares de pessoas continuem trabalhando, gerando renda e negócios.

Também não significa que todos se tornarão donos do próprio negócio. É possível empreender dentro da própria empresa, que sempre vai precisar inovar para vencer a concorrência e gerar resultados. Resta ver se boa parte do empresariado - tão conservadora e avessa a mudanças - está disposta a apostar nesta inovação. Mas isso é tema para outra discussão.

terça-feira, 15 de março de 2011

Recreio

E já que o assunto são as redes sociais, um vídeo engraçadissimo sobre o uso do Facebook pelos tripulantes da Enterprise. Ou, se "Jornada nas Estrelas" (Star Trek) incorporasse o uso das redes.

Primeiro dia de aulas

Depois de muita ansiedade e expectativa, enfim começaram as aulas. E, de quebra, com um toró daqueles. Logo eu que assumidamente não gosto de chuva.

Mas se ainda é cedo para qualquer avaliação mais aprofundada, de cara, duas constatações:

Constatação nº 1 - As mulheres são mesmo maioria. Já foi dito que elas estão estudando mais, se aperfeiçoando mais. A turma tem mais moças que rapazes. Bom sinal.

Constatação nº 2 - A quantidade de jornalistas e publicitários à solta no mercado. Todos relatam seu calvário em busca de uma colocação e contam suas agruras na busca de um emprego. Muitas vezes o primeiro depois de formados. Mau sinal.

Continua nos próximos capítulos...

PS> Para quem não sabe ainda, comecei nesta segunda feira a fazer um MBA. O link está aqui http://www.una.br/curso/pos-graduacao-mba-especializacao/mba-em-midias-sociais-e-gestao-da-comunicacao-digital

domingo, 13 de março de 2011

Mais uma mudança


Foram muitas as propostas de mudança apresentadas aqui neste espaço. A maioria - procrastinadores do mundo, uni-vos! - foi deixada de lado, boa parte pelas próprias mudanças de rumo que a vida nos reserva.

Mas agora - assim espero - há um foco, um alvo, um objetivo. Inicio uma nova fase na minha vida profissional ao cursar um MBA-Pós-graduação em "Mídias Sociais e e Gestão da Comunicação Digital".


Como se trata de uma solene volta às aulas, quero dividir com o nobre leitor e amigo as experiências, o aprendizado, novos conhecimentos, novas vivências.

Espero interagir com a precisão e periodicidade exigidas por este novo mundo que se abre com as novas tecnologias. Também quero receber muitas sugestões e colaborações.

Seja bem-vindo!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A batalha do Rio

Reproduzo aqui, mais uma vez, o texto do mestre Mauro Santayana. Vale a pena colocar a cabeça para refletir um pouco:

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É um engano identificar a batalha do Rio – e de outras grandes cidades – como mero confronto entre a polícia e delinquentes, traficantes, ou não. Embora a conclusão possa chocar os bons sentimentos burgueses, e excitar a ira conservadora, é melhor entender os arrastões, a queima de veículos, os ataques a tiros contra alvos policiais, como atos de insurreição social. Durante a rebelião de São Paulo, o governador em exercício, Cláudio Lembo, considerado um político conservador, mais do que tocar na ferida, cravou-lhe o dedo, ao recomendar à elite branca que abrisse a bolsa e se desfizesse dos anéis.

O Brasil é dos países mais desiguais do mundo. Estamos cansados do diagnóstico estatístico, das análises acadêmicas e dos discursos demagógicos. Grande parcela das camadas dirigentes da sociedade não parece interessada em resolver o problema, ou seja, em trocar o egoísmo e o preconceito contra os pobres, pela prosperidade nacional, pela paz, em casa e nas ruas. Não conseguimos, até hoje (embora, do ponto de vista da lei, tenhamos avançado um pouco, nos últimos decênios) reconhecer a dignidade de todos os brasileiros, e promover a integração social dos marginalizados.

Os atuais estudiosos da Escola de Frankfurt propõem outra motivação para a revolução: o reconhecimento social. Enfim, trata-se da aceitação do direito de todos participarem da sociedade econômica e cultural de nosso tempo. O livro de Axel Honneth, atual dirigente daquele grupo (A luta pelo reconhecimento. Para uma gramática moral do conflito social) tem o mérito de se concentrar sobre o maior problema ético da sociedade contemporânea, o do reconhecimento de qualquer ser humano como cidadão.

A tese não é nova, mas atualíssima. Santo Tomás de Aquino foi radical, ao afirmar que, sem o mínimo de bens materiais, os homens estão dispensados do exercício da virtude. Quem já passou fome sabe que o mais terrível dessa situação é o sentimento de raiva, de impotência, da indignidade de não conseguir prover com seus braços o alimento do próprio corpo. Quem não come, não faz parte da comunidade da vida. E ainda “há outras fomes, e outros alimentos”, como dizia Drummond.

É o que ocorre com grande parte da população brasileira, sobretudo no Rio, em São Paulo, no Recife, em Salvador – enfim em todas as grandes metrópoles. Mesmo que comam, não se sentem integrados na sociedade nacional, falta-lhes “outro alimento”. Os ricos e os integrantes da alta classe média, que os humilham, a bordo de seus automóveis e mansões, são vistos como estrangeiros, senhores de um território ocupado. Quando bandos cometem os crimes que conhecemos (e são realmente crimes contra todos), dizem com as labaredas que tremulam como flâmulas: “Ouçam e vejam, nós existimos”.

As autoridades policiais atuam como forças de repressão, e não sabem atuar de outra forma, apesar do emplastro das UPPs.

Na Europa, conforme os analistas, cresce a sensação de que quem controla o Estado e a sociedade não são os políticos nem os partidos, escolhidos pelo voto, mas, sim, o mercado. Em nosso tempo, quem diz “mercado”, diz bancos, diz banqueiros, que dominam tudo, das universidades à grande parte da mídia, das indústrias aos bailes funk. E quando fraudam seus balanços e “quebram”, o povo paga: na Irlanda, além das demissões em massa, haverá a redução de 10% nas pensões e no salário mínimo – entre outras medidas – para salvar o sistema.

A diferença entre o que ocorre no Rio e em Paris e Londres é que, lá, o comando das manifestações é compartido entre os trabalhadores e setores da classe média, bem informados e instruídos. Aqui, os incêndios de automóveis e os ataques à polícia são realizados pelos marginalizados de tudo, até mesmo do respeito à vida. À própria vida e à vida dos outros.

domingo, 21 de novembro de 2010

O Islã e as mulheres


Este post foi publicado em abril de 2009 e mostra-se atual em relação à relação do Islamismo com as mulheres.

Para fomentar o debate, republico o texto.

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Em dois livros "A Infiel" e "A Virgem na Jaula", a cientista política Ayaan Hirsi Ali, somaliana de nascimento e atualmente residindo nos Estados Unidos coloca o dedo na ferida ao questionar, aberta e publicamente, a relação do islamismo com as mulheres.

Na primeira parte do livro, Hirsi Ali narra em pormenores como viveu o pão que o diabo amassou. Fugindo de guerras e golpes, morou no Quênia, passou pela Arábia Saudita e viveu longe do pai – um ativista político – mas ao lado da mãe conservadora e da avó, mas conservadora ainda. Mãe e avó não pestanejaram em recorrer à clitoridectomia, ou seja, seu clitóris e grandes lábios são extirpados a seco quando ela era criança. Caso contrário, poderia ser considerada uma prostituta.

As dificuldades e costumes tribais se sucedem em uma narrativa seca, sem rancor, mas com sensibilidade. Na segunda parte, já vivendo na Holanda, para onde fugiu depois de recusar um casamento arranjado pelo pai, Hirsi Ali parte para algumas reflexões, depois de aprender o holandês (com méritos, pois já se comunicava em somali, inglês e um árabe rudimentar) e concluir a faculdade. Não antes de se eleger deputada no parlamento holandês.

Seu principal questionamento é que se os países cristãos devem sofrer porque são infiéis, porque os países muçulmanos é que se vêem envoltos em guerras e uma gritante pobreza? Quando tudo parecia se encaminhar para uma vida menos sofrida, a cientista política viu-se ameaçada e transformada em um Salman Rushdie de saias. Vive debaixo de um aparato militar e é jurada de morte pelos mais radicais e fanáticos que a acusam de profanar o Islã e o profeta Maomé.

Por conta de suas colocações, Hirsi Ali já perdeu um amigo, Theo Van Gogh, cineasta com que fizera o filme “Submissão”. Ele foi encurralado por uma radical e morto. Em seu peito foi cravada uma faca com um bilhete endereçado à escritora. Da forma mais paradoxal, o tal bilhete começava recorrendo a “Alá, o clementíssimo e misericordiossímo”.

Sem a menor dúvida, vale a pena se debruçar pelas quase 500 páginas de “Infiel”. A história, apesar de triste, é muito bem narrada e suas considerações finais a respeito de religiosidade e respeito à individualidade e ao livre arbítrio, são fundamentais em um mundo que precisa cada vez mais de aceitar e respeitar o outro.

Ao final, resta a dúvida: até quando a liberdade de credo deve ser aceita, mesmo que em nome desta fé sejam cometidas atrocidades e flagrantes desrespeitos a direitos humanos dos mais básicos e sem os quais a vida não ter o menor sentido?

Depois de "A Infiel", Ali Ayaan Hirsi Ali joga mais lenha na fogueira com seu livro "A Virgem na Jaula - Um apelo à Razão". A obra reúne alguns ensaios, discursos no Parlamento holandês (onde é deputada) e até o roteiro de "Submissão", filme odiado por nove em cada dez muçulmanos do planeta.

Ayaan Ali entra em temas muito mais que polêmicos, explosivos até, ao questionar o que chama de atraso do mundo muçulmano e seu histórico de violência, principalmente contra as mulheres. "Queremos o nosso Voltaire", brada a autora, fazendo menção a um dos ideólogos do Iluminismo, que por sua vez desembocou na Revolução Francesa e no respeito aos direitos humanos, principalmente o de expressão.

Apesar de respeitar a religião, Ayaan não se furta em questionar Maomé (ou Muhamed, como preferem os mais politicamente corretos) e culpar o islamismo pelo atraso econômico de alguns países que misturam Estado e religião. Ela vai mais além ao afirmar que não há "um muçulmano que tenha feito uma descoberta científica e tecnologia". E sentencia: "numa comunidade de 1,2 bilhão de fiéis, conhecimento e progresso não são aspirações prioritárias".

Ayaan ainda despeja pólvora na fogueira quando alinha, em um capítulo de seu livro, dez dicas para muçulmanas que querem fugir. Merece registro também seu levantamento sobre a "circuncisão feminina", meninas que têm o clitóris arrancado e a vagina suturada para tirar o prazer e mostrar virgindade. Uma prática tribal e que, segundo ela, conta com o "silêncio complacente" dos países desenvolvidos.

* AGENDA : "A Virgem na Jaula - Um Apelo à Razão", de Ayaan Hirsi Ali, editora Companhia das Letras, 224 págs., R$ 39

* AGENDA : “Infiel – A história de uma mulher que desafiou o Islã”, Companhia das Letras, 496 páginas, R$ 49.

Ahmadinejad

Não morro de amores pelo líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Por uma série de motivos que aqui não cabe enumerar.

Mas dar grande destaque à sua "sugestão" de que as iraniana deveriam se casar aos 16 anos é exagerar nas tintas. No fundo, no fundo, o que se quer é atacar a política externa do governo brasileiro.

Tá certo que é questionável certas atitudes do governo Lula com relação ao governo iraniano. Principalmente no caso do apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani.

Mas bater, única e exclusivamente, no Irã revela a chamada indignação seletiva. Em muitos países árabes (e, coindentemente ou não, alinhados com os EUA), há gritantes violações dos direitos humanos.

Há muito mais violência contra a mulher no mundo islâmico e que não chamam tanto a atenção. É o caso da clitoridectomia, ou exrtirpação do clitóris. Ainda muito comum em diversas comunidades e feita para inibir o prazer sexual.

Acho este tipo de barbaridade muito mais grave. E não vejo quase ninguém protestando com a mesma veemencia!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Preconceito e xenofobia

A mocinha tenta estacionar o carrão dentro do supermercado. O carro é grande e, apesar das parafernálias tecnológicas, insiste em não caber na exígua vaga.
Surge o solícito funcionário do supermercado e se dispõe a colocar aquela 'banheira' entre dois carros.
A mocinha desce, entrega a chave com displicência. Não olha no olho do manobrista (que também responde pelas funções de 'Segurança III', 'Ajudante de serviços gerais IV' e 'Pau-pra-toda-obra I'.
Ela não o cumprimenta, nem sequer agradece. Nada. Nem um protocolar balançar de cabeça.

Apenas deixa as chaves com ele e sai, ajeitando o cabelo e olhando o comprimento do vestido.

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Toda essa crônica de costumes é para narrar cena vista há alguns dias e que chamou a atenção deste que vos digita.

A mocinha com seu carrão e sua empáfia é cena cotidiana em um país que ainda não conseguiu se desvencilhar de um persistente ranço escravocrata. E a observação se une à onda xenófoba que assustou uma parte do país.

País que, diga-se de passagem, até pouco tempo atrás ainda tinha edifícios com a divisão entre o elevador social e o de serviço. Empregado, entregador de pizza, preto e pobre? Aos seus lugares, por favor!

Recentemente, colega de profissão reclamava das vagas no estacionamento, lotado, da empresa que a obrigou a deixar o carro na rua. "Não sou pião", vociferava, com a certeza de que o diploma de curso superior a coloca em um patamar superior ao restante da humanidade.

Flagrantes deste desrespeito são diários e silenciosos. Em pleno século XXI algumas pessoas ainda se acham melhores que as outras e dotadas de privilégios sócio-acadêmicos-financeiros que as diferenciam.

A TV repete estereótipos: o mineiro desconfiado, o carioca malandro, o paulista sisudo, o nordestino ingênuo, a loura burra....

E depois nos assustamos quando alguém expõe, às claras, todo esse preconceito subliminar que nos rodeia.

Confundimos, sem o menor pudor e discernimento, direitos com privilégios.
Lamentável!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Definição

"O jornalista político precisa de três livros de cabeceira: a gramática, para saber escrever; a Constituição, para ter respaldo sobreo que escreve; e a Bíblia, para rezar pelas consequências."
(Leandro Mazzini)

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

De volta

Eram para ser 15 ou 20 dias. Foi em abril. Tinha planos de aprimorar o blog. Mas não pude.

Preferi passar o período eleitoral e também porque cumpria um contrato de trabalho e achei melhor não me expor e manter o equilíbrio.

Equilíbrio, aliás, fundamental numa campanha onde a intolerância e o patrulhamento ideológico andaram à solta.

Estou de volta e disposto a arejar este espaço, além de dar vazão a uma quase patológica necessidade de escrever.

Volto em breve! Obrigado!